TOD - Transtorno Opositivo Desafiador:

Como Identificar?

 

Ao falarmos sobre o Transtorno Desafiador Opositivo ou Transtorno de Oposição Desafiante (TOD), é muito comum recebermos comentários como: “no meu tempo isso não existia”, “isso é falta de surra”, “a culpa é dos pais, que não têm autoridade”, entre outros nesta categoria.

Esse tipo de comentário nos mostra a importância da disseminação da informação, pois denota a ignorância, isto é, a falta de conhecimento sobre este tema. Assim como uma grande falta de sensibilidade pelas famílias e pelas crianças que estão em sofrimento por conta deste transtorno, já que um dos critérios estabelecidos pelo DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) para o diagnóstico do TOD consiste em que a perturbação no comportamento está associada a sofrimento para o indivíduo ou para os outros em seu contexto social imediato (p. ex., família, grupo de pares, colegas de trabalho) ou causa impactos negativos no funcionamento social, educacional, profissional ou outras áreas importantes da vida do indivíduo.

 

Mas o que vemos na realidade é que nossos centros de recuperação, reformatórios e presídios estão cheios não das “crianças de hoje”, mas das “crianças de ontem”. Boa parte da população carcerária e dos “reformatórios” é formada por pessoas com transtornos de personalidade antissocial e transtorno de conduta. Pessoas com dificuldade em obedecer a regras, se submeter a autoridades, demonstrar empatia, compaixão e remorso.

Mas por que falar disso?

 

Porque de acordo com o DSM-V, o transtorno de oposição desafiante precede o desenvolvimento do transtorno da conduta. Além disso, crianças e adolescentes com esse transtorno possuem risco aumentado para uma série de problemas de adaptação na idade adulta, incluindo comportamento antissocial, problemas de controle de impulsos, abuso de substâncias, ansiedade e depressão.

 

Isso nos leva a pensar que no lugar de, “no meu tempo não existia isso”, deveríamos ouvir “no meu tempo não havia esclarecimento suficiente para ajudar as crianças daquela época”. Tiveram suas dificuldades negligenciadas, em vez de receber atenção, cuidado e orientação adequados a suas dificuldades de controle dos impulsos, de resistência às frustrações, de treino de habilidades sociais, entre outras intervenções possíveis.

O diagnóstico não surge para justificar um comportamento inadequado, mas para mostrar que é possível intervir no curso do desenvolvimento desta criança ou adolescente, de modo que a prevenção e a intervenção precoce são palavras-chave para o sucesso terapêutico dessas alterações comportamentais. É como se pudéssemos botar a “locomotiva de volta aos trilhos” o mais rápido e precocemente possível, favorecendo uma vida adulta mais saudável.

 

É importante também clarificar que no TOD encontram-se as crianças que apresentam sintomas severos de desafio e oposição e não deve ser confundido com a “birra”, que seria o desafio normal de uma criança em determinado contexto, assim como comportamentos opositivos temporários, que fazem parte do desenvolvimento natural da criança.

 

Para que se chegue ao diagnóstico, é necessária uma entrevista cuidadosa com os responsáveis pela criança a fim de investigar a gravidade dos sintomas, características e prejuízos; bem como uma avaliação do círculo familiar, no que compreende aos estilos e padrões de comportamento parentais, interação, comunicação e histórico familiar de transtornos comportamentais. Além disso, como dito anteriormente, é necessário seguir os critérios diagnósticos estabelecidos pelo DSM-V, que consistem em:

 

A. Um padrão de humor raivoso/irritável, de comportamento questionador/desafiante ou índole vingativa com duração de pelo menos seis meses, como evidenciado por pelo menos quatro sintomas de qualquer das categorias seguintes e exibido na interação com pelo menos um indivíduo que não seja um irmão.

 

Humor Raivoso/Irritável

 

 1. Com frequência perde a calma.

 2. Com frequência é sensível ou facilmente incomodado.

 3. Com frequência é raivoso e ressentido.

Comportamento Questionador/Desafiante

 4. Frequentemente questiona figuras de autoridade ou, no caso de crianças e adolescentes, adultos.

 5. Frequentemente desafia acintosamente ou se recusa a obedecer a regras ou pedidos de figuras de autoridade.

 6. Frequentemente incomoda deliberadamente outras pessoas.

 7. Frequentemente culpa outros por seus erros ou mau comportamento.

Índole Vingativa

 8. Foi malvado ou vingativo pelo menos duas vezes nos últimos seis meses.

 

Nota: A persistência e a frequência desses comportamentos devem ser utilizadas para fazer a distinção entre um comportamento dentro dos limites normais e um comportamento sintomático.

 

No caso de crianças com idade abaixo de 5 anos, o comportamento deve ocorrer na maioria dos dias durante um período mínimo de seis meses, exceto se explicitado de outro modo (Critério A8). No caso de crianças com 5 anos ou mais, o comportamento deve ocorrer pelo menos uma vez por semana durante no mínimo seis meses, exceto se explicitado de outro modo (Critério A8). Embora tais critérios de frequência sirvam de orientação quanto a um nível mínimo de frequência para definir os sintomas, outros fatores também devem ser considerados, tais como se a frequência e a intensidade dos comportamentos estão fora de uma faixa normativa para o nível de desenvolvimento, o gênero e a cultura do indivíduo.

 

 B. A perturbação no comportamento está associada a sofrimento para o indivíduo ou para os outros em seu contexto social imediato (p. ex., família, grupo de pares, colegas de trabalho) ou causa impactos negativos no funcionamento social, educacional, profissional ou outras áreas importantes da vida do indivíduo.

 

C. Os comportamentos não ocorrem exclusivamente durante o curso de um transtorno psicótico, por uso de substância, depressivo ou bipolar. Além disso, os critérios para transtorno disruptivo da desregulação do humor não são preenchidos.

 

Logo, vemos que o diagnóstico de TOD não é simplesmente um nome para a criança que fez birra no supermercado ou no shopping. Mas um diagnóstico sério conferido por profissionais competentes que sabem diferenciar o que é normal dentro do ambiente fornecido para o desenvolvimento daquela criança do que é patológico. Isto é, vale-se não apenas de questões comportamentais, familiares, ambientais, mas de um conjunto de alterações que interferem no desenvolvimento adequado da criança que, a partir do diagnóstico correto, poderá encontrar novas formas de identificar suas emoções e controlar seus impulsos, por exemplo.

Quanto às formas de tratamento, existem as terapias medicamentosas com antipsicóticos ou neurolépticos; estabilizadores do humor; psicoestimulantes; e, antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina. Devido aos efeitos colaterais e suas particularidades, elas devem ser administradas por especialistas (neurologistas ou psiquiatras infantis).

Devemos ressaltar que apenas a medicação não irá resolver ou curar o transtorno mas somente amenizar e aumentar a flexibilidade dos seus sintomas principais. Assim como na maioria dos transtornos psicológicos, a eficácia do tratamento se dá na combinação da medicação com a psicoterapia.

 

Neste caso a Terapia Cognitivo Comportamental tem sido a mais recomendada para o tratamento de transtornos externalizantes na infância por sua eficácia terapêutica. Suas técnicas objetivam, basicamente, atuar nos déficits das habilidades sociais, controle dos impulsos, agressividade, controle da raiva, resolução de problemas e aumento do limiar de tolerância à frustração.

É importante salientar que a família é também objeto de intervenção com acolhimento, psicoeducação e treino de habilidades parentais para atuar com estilos de comunicação não-violenta, bem como formas de disciplinar e educar. Além disso, ela é parte fundamental no sucesso do curso terapêutico.

 

Se você conhece alguma criança ou adolescente que possa se encaixar neste perfil, procure ajuda especializada e ofereça a ela a possibilidade de aprender novas formas de interagir com o meio em que vive e, consequentemente, evitar problemas futuros.

 

"É mais fácil criar crianças fortes do que consertar homens quebrados." (A.D.)

 

Texto escrito pelo psicóloga Tatiane Nascimento da equipe FonoCom.