A importância dos pais no processo terapêutico

 

A descoberta de um transtorno, síndrome ou alguma alteração em uma criança gera impactos e traz repercussões na vida dos pais. O impacto será sentido e trará consequências variadas para cada família. Alguns pais irão vivenciar sentimentos similares ao luto ou perda. Além do mais, muitas vezes o diagnóstico é dado de maneira pouco empática para os pais, aumentando ainda mais o choque, o desespero e confusão dos mesmos.

Normalmente quando nós, terapeutas, falamos sobre o diagnóstico e tudo que está por vir, entregamos um leque de terapias necessárias, falando da impotância de cada uma. Muitas vezes, os terapeutas esquecem que a maior parte dos pais não tem como arcar com tanta terapia, e muito menos, como conseguir essas terapias de maneira rápida no serviço público, e com isso, geramos ainda mais ansiedade nesses pais. Afinal, se a criança não fizer isso tudo, não irá evoluir?

Bem verdade que todas essas terapias são importantes, algumas mais do que outras, dependendo do caso. Por isso, cada caso deve ser analisado separadamente. Mas muito mais importante do que essas terapias, sem dúvida é a participação dos pais!

Pais participativos no processo terapêutico de seus filhos, favorecem o bom prognóstico. São vocês, pais, que passam a maior parte do tempo com a criança, mesmo se só contarmos os dias do final de semana! Cerca de 18 horas por dia, alguns até mais!

A parceria terapeutas e pais é muito importante! Terapeutas devem informar sobre como se dará o processo terapêutico da criança e orientar quanto as atividades que a criança deverá realizar em casa. Já vocês, pais, devem reservar um tempo para por em prática as ideias dos terapeutas.

Sempre que possível ou necessário, terapeutas devem permitir a entrada dos pais na sala durante os atendimentos, para que vejam como devem fazer. É muito importante torná-los peças chaves do processo terapêutico. Quando participam de algumas sessões são capazes de replicar as ideias em casa.

Quando os pais entram nas sessões, podem trazer novas informações do seu dia, bem como outros anseios e dificuldades que vão aparecendo ao longo do processo terapêutico.

A entrada dos pais ajuda a promover de maneira mais eficaz, as propostas terapêuticas aumentando a chance de serem repetidas e replicadas em diversos contextos, tornando o aprendizado mais efetivo. A intervenção feita pelos pais mostra-se benéfica não só para as crianças, mas para os pais também. Algumas pesquisas apontam para a redução do estresse parental, bem como maior engajamento no processo terapêutico. Quando os pais acreditam que são parceiros e importantes no processo de terapia dos seus filhos, se tornam mais participativos, e favorecem um prognóstico melhor.

 

Abaixo listarei algumas dicas para atividades em casa:

  • Reserve um tempo para o seu filho. Quanto mais contato e atividades em conjunto tiver, melhor!

  • Reserve um cantinho da casa para as interações! Sem muitas distrações no local!

  • Elimine coisas que possam fazer concorrência: televisão, tablets e telefones, por exemplo! A criança e vocês devem aproveitar ao máximo os momentos juntos!

  • Descubra brincadeiras que ele gosta! Aumentar o repertório de brincadeiras é extremamente importante para o desenvolvimento! Então, tente apresentar o máximo de brinquedos! Anote tudo, e tenha eles sempre em mãos!

  • Trabalhe o contato visual. Leve o objeto que está chamando atenção ao seu rosto! Sorria sempre que a criança olhar!

  • Brinque sempre de frente para o seu filho! Permita que ele veja suas expressões faciais. Exagere nelas!

  • Aproveite a hora da refeição! Ofereça pequenas porções, e faça com que ele solicite mais. A solicitação pode ser através de um som, gesto ou olhar! Incentive seu filho a dividir a comida com vocês!

  • Escolha um brinquedo para trabalhar por vez! Certifique que a criança continuará prestando atenção em vocês! Muitas vezes, a criança se concentra no objeto, o que atrapalha a interação. Fique sempre atento!

  • Deixe a criança escolher o brinquedo! Caso ela sempre queira o mesmo, retire esse brinquedo do ambiente, e deixa à vista opções que vocês gostariam de utilizar!

  • Imite o seu filho! Crianças prestam bastante atenção quando são imitadas!

  • Embarque na ideia do seu filho! Alterne com ele a liderança na brincadeira! Faça ele perceber essa troca de papéis!

  • Nunca obrigue a criança a ficar em um determinado espaço. Torne o ambiente e a brincadeira, convidativos.

  • Utilize canções, faça cócegas, balance a criança, brinque de rodar, brinque na hora do banho, enfim, aproveite todas as oportunidades!

  • Controle o nível de euforia e de atenção! Crianças muito excitadas com a brincadeira, tendem a perder um pouco a atenção. Crianças pouco estimuladas com a brincadeira, não focam em você!

  • Fale palavras simples e frases curtas! Repita várias vezes ao longo da atividade! Algumas crianças só irão responder, após algumas tentativas! INSISTA! 

  • FALE DEVAGAR!

  • Quando a brincadeira se torna muito repetitiva, geralmente a criança cansa! Tente adicionar outros brinquedos ou faça outras brincadeiras com o passar dos dias!

  • Quando mais pessoas estiverem participando da brincadeira, certifiquem-se que somente uma dará o comando! Não confunda a cabeça da criança!

QUANTAS VEZES DEVEMOS ESTIMULAR NOSSO FILHO?

 

Quantas vezes for possível! Crianças aprendem com a REPETIÇÃO! Quanto mais melhor! Mas lembrem-se de manter a qualidade dessas interações. Todo mundo precisa de um descanso! Tenham em mente que todo mundo precisa fazer outras coisas ao longo do dia, inclusive vocês!

Reservem um tempo para vocês! Vocês devem aproveitar momentos próprios! Manter a mente e o corpo sãos! Afinal, educar não é fácil, e requer toda energia e atenção possível! Alternem quem irá comandar a brincadeira com o filho hoje! Assim, não fica cansativo, e mantem todo mundo estimulado durante todo o caminho!

O caminho é longo, e com muitos obstáculos, mas tenham em mente que cada criança tem o seu tempo, e por isso, devemos sempre insistir!

 

Referência bibliográfica

SEGEREN, Leticia; FERNANDES, Fernanda Dreux Miranda. Correlação entre a oralidade de crianças com distúrbios do espectro do autismo e o nível de estresse de seus pais. Audiol., Commun. Res.,  São Paulo ,  v. 21,  e1611,    2016 . 

RIETH, SR, HAINE-SCHLAGEL, R., BURGESON, M., SEARCY, K., DICKSON, KS, & STAHMER, AC. (2018). Integrating a Parent-Implemented Blend of Developmental and Behavioral Intervention Strategies into Speech-Language Treatment for Toddlers at Risk for Autism Spectrum Disorder. Seminars in Speech and Language, 39(2), 114-124. http://dx.doi.org/10.1055/s-0038-1627483

 

Texto escrito pela fonoaudióloga Dharana Gaia da Equipe FONOCOM.