ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

 

 

 

Muito se discute sobre fracasso escolar e as dificuldades nos processos de leitura e escrita. São muitos os fatores que influenciam o desenvolvimento da linguagem escrita, mas é preciso ter equilíbrio e consciência da importância de todas as etapas e processos para seu desenvolvimento pleno. Em primeiro lugar, é importante o entendimento de que o desenvolvimento da leitura e da escrita não é um processo natural como o da linguagem oral. Para falar, a criança precisa estar inserida num meio comunicativo oral e interagir socialmente. Em contrapartida, para ler e escrever não basta que ela esteja inserida e interagindo com pessoas que saibam ler e escrever e leem para ela. A escrita é uma invenção do homem e depende de aprendizagem formal para que seja adquirida e desenvolvida. Cabe ressaltar que estar inserido em um mundo da escrita, ter contato com livros, ouvir histórias, entender o uso e a importância da linguagem escrita faz parte do letramento que é um processo cultural e social de extrema importância, porém compreender o código alfabético a partir da sua relação fonema-grafema não deve ser deixado de lado. É preciso também alfabetizar, ensinando o código e os processos de codificação e decodificação. Alfabetizar não é sinônimo de letramento e ambos os termos não são excludentes, e sim, devem ser complementares.

Por que é preciso diferenciar esses termos e entender os processo de leitura e escrita?

Hoje sabe-se que a leitura ocorre num sistema de dupla rota, sendo uma fonológica (decodificação por partes) e outra lexical (leitura visual da palavra). De forma bem simplificada, podemos dizer que, geralmente, iniciamos a alfabetização decodificando as partes que compõe a palavra de forma lenta e a vivência contínua dessa decodificação faz com que tenhamos uma memória visual das palavras, o que nos torna leitores mais fluentes.

O que acontece quando não ensinamos o código alfabético para a criança é que não damos autonomia para ela ler qualquer palavra que ela quiser através da rota fonológica por que é assim que fazemos quando nos deparamos com palavras novas: decodificamos suas partes fazendo a relação grafema-fonema. Se há uma preocupação em ensinar o todo,  a palavra inteira, e não há aprendizagem da relação fonema-grafema, a criança poderá não conseguir desvendar o código sozinha, irá memorizar palavras e não terá autonomia para ler novas palavras. Adultos também utilizam as duas rotas de leitura, recorrendo à rota fonológica, também denominada sublexical, toda vez que se deparam com palavras novas, como por exemplo, ao ler uma bula de remédio com nomes de substâncias nunca lidas antes. A relação fonema-grafema possibilita que estas palavras sejam lidas.

Em suma, fique atento a todo o processo que envolve a aquisição e desenvolvimento da leitura e da escrita. O letramento pode começar cedo quando pais leem para o bebê ainda na barriga, com livros de banho, mostrando o mundo da escrita e sua importância na necessidade de ler embalagens, placas, jornais, ônibus, manuais de brinquedos e jogos e outros. O processo de letramento desperta também o interesse da criança pelas letras e pela linguagem escrita propriamente dita. Em contrapartida, desvendar o código alfabético pode ser mais fácil ou mais difícil para uma ou outra criança, ensiná-lo favorece a todos. Alfabetização é um processo que tem início e fim, o letramento é para toda a vida! Ambos devem ser levados a sério e devem receber sua devida importância para o pleno desenvolvimento do sujeito.

Texto escrito pela fonoaudióloga e psicopedagoga Roberta Angelo CRFa1 13.631 da equipe FonoCom.